Unison entrevista Marisa Gandelman, CEO da IANAH Empreendimentos Culturais e Artisticos

Marisa Gandelman, advogada especialista em Direitos Autorais, Mestre e Doutora em Relações Internacionais, começou sua vida profissional como pianista e professora de música. Mais tarde graduou-se em Direito, foi Professora da PUC-Rio na disciplina de Direitos Autorais e prestou assessoria para autores e demais profissionais das indústrias criativas. Foi Diretora Executiva da União Brasileira de Compositores – UBC, período em que atuou como membro do Conselho de Administração da CISAC.

Sabemos que a IANAH é um projecto muito especial dentro do mundo editorial! Porque razão nasce a IANAH e como tem sido o caminho até agora? Conta-nos um pouquinho sobre a vossa história e da vossa relação com os autores compositores.

A IANAH é uma empresa de família. Fizemos uma sociedade, eu e meu filho, para constituir uma pessoa jurídica que nos representa legalmente nas atividades de cada um de nós, que são afins. Alberto Continentino, meu filho, é um músico genial, excelente compositor, produtor, e um instrumentista amado pelos músicos. Eu sou advogada em Direitos Autorais e tenho longa experiência nos negócios da música. Antes da Ianah eu fui sócia em uma editora/gravadora e fui presidente da associação dos editores por um tempo. Ao terminar meu Doutorado em Relações Internacionais, fui apontada Diretora Executiva da UBC.

Depois que deixei meu cargo na UBC, fizemos a Ianah para organizar nossas atividades. Formatei e coloquei para funcionar uma editora com o repertório de um compositor. Aos poucos, vieram os parceiros dele e os parceiros dos parceiros. Eles formam um grupo de excelentes compositores, incrivelmente criativos, competentes e profissionais. Antes de ser advogada, fui profissional da música por muitos anos. Toquei profissionalmente e dei aulas de música durante muito tempo. Conheço a vida dos músicos e dos compositores. Com eles convivi a minha vida inteira. Minha mãe é a nossa professora, sou de uma família de músicos.

Quais os maiores desafios para a IANAH e para os seus membros na era do consumo de música digital?

O maior desafio para uma pequena editora é encontrar serviços confiáveis e eficientes para fazer a gestão do repertório, considerando que muito da receita tradicional das editoras vai se transferindo, com crescente intensidade, para os serviços online, um espaço no qual convivem milhões de músicas que geram micro receitas. Um catálogo pequeno e sofisticado gera micro receitas. Consequentemente, o custo de administração do repertório é mais alto do que a receita produzida, tornando-se economicamente inviável.

No mundo digital, em um ambiente em que dezenas de milhares de novas gravações são colocadas à disposição do público diariamente, sobrevivem os grandes catálogos que tendem a se agregar cada vez mais. Conhecemos o tamanho do mercado online e o infinito potencial de crescimento. Nessa realidade, a luta por market share é extremamente feroz, a tendência concentradora é implacável. Para os pequenos, os que cultivam um branding de boutique, a única chance de sobreviver é a gestão coletiva.

No Brasil, a gestão coletiva de música atua, tradicionalmente, na execução pública. Portanto, outros direitos ficam a cargo dos editores. O editor independente não tem como cobrar seus direitos dos provedores de serviço diretamente. Eu diria que no Brasil há uma carência de serviços que oferecem acesso a software de gestão e de manutenção dos dados do repertório, bem como serviços de processamento de distribuição dos valores recebidos. Sinto falta de soluções que permitam que os custos de desenvolvimento e manutenção da infraestrutura de software e inteligência de gestão sejam compartilhados pelos usuários. No que diz respeito ao exterior, a situação é ainda mais complicada porque a solução tradicional do sub-editor não funciona para pequenos catálogos que dão trabalho e pouco rendimento. Por isso, venho buscando conhecer as companhias que atuam nas várias regiões do mundo, oferecendo serviços para editores de música, inclusive pequenos catálogos. Este é um assunto que muito me interessa. 

Em todos os meios desde há alguns anos se fala do potencial da indústria da música Brasileira como uma força incrível capaz de conquistar com suas melodias os 4 cantos do mundo. Que falta fazer para tornar isso realidade?

Não dá mais para pensar assim. O ambiente do streaming musical coloca à disposição do público, nos quatro cantos do mundo, “todo” o repertório de música gravada existente. A música brasileira está nesse universo de música e não tem prateleira, escaninho para separar. As pessoas procuram por música, escutam, gostam, o algoritmo observa, oferece novas músicas e essa viagem nos leva a tantos lugares e tempos. Essa amplitude de alcance desnacionaliza. Cada um procura e escuta a música com a qual se identifica, ou simplesmente a música que gosta. Tem gente mais curiosa e tem gente mais conservadora, que não se cansa de seus preferidos. Não sei se ainda existe espaço, ou se faz sentido essa ideia da força da música brasileira nos quatro cantos do mundo. Acho que não existe mais o “label” música brasileira que existia nas prateleiras das lojas de discos.

Como se pode conciliar a carreira de uma advogada como tu, com gestão de uma editora. O seu passado enquanto CEO da UBC ajuda?

Não atuo como advogada, no sentido estrito. Sou uma conhecedora dos assuntos dos direitos autorais e dos negócios das indústrias criativas. Tenho conhecimento na área, longa experiência e interesse por tudo que diz respeito a este universo. Assim, me vejo mais como uma advisor, uma consultora na área dos negócios do copyright. A Editora faz parte disso. Trabalho para vários compositores, seja fornecendo serviços de consultoria, ou como editora que documenta o repertório, autoriza, cobra, recebe, e procura oportunidades para o desenvolvimento do catálogo.

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